Como ontem foi o dia universal dos animais, vou contar um pouco sobre os bichos, aliás, o bicho - o "Jogo do Bicho". Esse jogo de azar começou pelos idos de 1892, mas somente em 03 de outubro de 1941 que foi considerado ilegal. O que era uma boa idéia no início, com o tempo tornou-se crime. A cultura brasileira está cheia de dicas para se fazer uma "fezinha" e os sonhos são os mais utilizados. Secular no Brasil, o” jogo do bicho” é extremamente popular em todas as regiões desse imenso país.
Bem, esse jogo surgiu no Brasil no início da República pelas mãos do Barão de Drummond, João Batista Viana Drummond. Naquela ocasião, o aristocrata decidiu fazer uma campanha para conseguir reerguer o jardim zoológico de sua propriedade, em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, que passava por sérias dificuldades.
Assim, o Barão listou os 25 animais existentes no espaço e lançou o jogo, estipulando quatro números para cada bicho, formando as dezenas de 00 a 99. Esse critério é utilizado até hoje, só alguns bichos que mudaram.
Inaugurado em 4 de julho de 1892, a imprensa e a alta sociedade carioca festejaram a novidade criada pelo Barão, afim de atrair mais pessoas para o seu imenso jardim.
" A empresa do Jardim Zoológico realizou ontem um magnífico passeio campestre ao seu importante estabelecimento, situado no pitoresco bairro de Vila Isabel.
Em bondes especiais dirigiram-se os convidados e representantes da imprensa àquele local e depois de visitarem o hotel, que se acha nas melhores condições, os jardins, as gaiolas em que se acham os animais e aves, tomaram parte em um lauto jantar, em mesa de mais de 60 talheres, presidida pelo digno diretor daquela empresa, o sr. barão de Drummond.
O primeiro brinde foi levantado pelo sr. Sérgio Ferreira ao sr. Barão de Drummond, que em seguida, com toda gentileza, brindou à imprensa, sendo correspondido pelo nosso representante. Trocaram-se ainda outros brindes, sendo o último ao sr. vice presidente da República.
Com meio de estabelecer a concorrência pública, tornando freqüentado e conhecido aquele estabelecimento que faz honra ao seu fundador, a empresa organizou um prêmio diário que consiste em tirar à sorte dentre 25 animais do jardim Zoológico o nome de um, que será encerrado em uma caixa de madeira às 7h da manhã e aberto às 5h da tarde, para ser exposto ao público. Cada portador de entrada com bilhete que tiver o animal figurado tem o prêmio de 20$. Realizou-se ontem o 1º sorteio, recaindo o prêmio do Avestruz, que deu uma recheiada poule 460$000.
A empresa tem em construção um grande salão especial para concertos, bailes públicos, e vai estabelecer no jardim jogos infantis e outros diversos para o público.
Ás 9h voltaram os convidados, pessoas de alta distinção, penhorados todos à gentileza do sr. Barão de Drummond e seus dignos auxiliares. Foi uma festa esplêndida".
("Jornal do Brasil", 4 de julho de 1892)
Tudo ia bem, até que os vigilantes da lei apontaram a ilegalidade do jogo, como mostra a correspondência entre delegados publicada por outro jornal carioca cerca de duas semanas depois da inauguração do "jogo do bicho".
"Ao Dr. 2º Delegado dirigiu ontem o Dr. Chefe de Polícia o seguinte ofício:
No empenho de procurar atrair concorrência de visitantes ao Jardim Zoológico, solicitou o seu diretor para certo recreio público licença, que lhe foi concedida pela polícia, em vista da feição disfarçadamente inocente que da simples primeira descrição do divertimento parecia se deduzir.
Entretanto, posta em prática essa diversão, se verifica que ela tem o alcance de verdadeiro jogo, manifestadamente proibido. Os bilhetes expostos à venda contêm a esperança puramente aleatória de um prêmio em dinheiro, e o portador do bilhete somente ganha o prêmio, se tem a felicidade de acertar com o nome a espécie do animal que está erguido no alto de um mastro.
Essa diversão, prejudicial aos interesses dos encantos, que com a esperança enganadora de um incerto lucro se deixam ingenuamente seduzir, é precisamente um verdadeiro jogo de azar, porque a perda e o ganho dependem exclusivamente do acaso e da sorte.
Como semelhante divertimento não pode por mais tempo ser tolerado, e conquanto maior fundamento quanto é certo que muitas queixas me têm sido dirigidas pelas pessoas lesadas, assim intimarei ao diretor do Jardim Zoológico para que suspenda imediatamente a continuação do aludido jogo, sob pena de ser processado na conformidade dos artigos 369 e 370 do código penal".
("O Tempo", 23 de julho de 1892)

Assim, nesse vai e vem, o "jogo do bicho" começou a funcionar no Brasil. E essa ambigüidade entre legalidade e ilegalidade, manteve-se por décadas, escapando dos muros do Jardim Zoológico para todo o Rio e depois para o Brasil.
Finalmente a Lei de Contravenções Penais, decreto-lei 3.688, de 3 de outubro de 1941, considerou efetivamente a proibição dos jogos de azar no Brasil, prevendo prisão, multa e fechamento do estabelecimento quando descoberta a prática do jogo do bicho.
No entanto, a proibição não inibiu a sua prática. Aliás, como podem impedir um jogo tão popular, dizendo que os jogos de azar são proibidos no Brasil, se a própria Caixa Econômica Federal ( do governo ), explora uma porção de outros jogos de azar? (raspadinhas, mega-sena,lotomania,quina, etc)
Total incoerência.
Com o passar dos anos, os "chefes do bicho" - chamados bicheiros - começaram a tornar-se cada vez mais poderosos, com braços em agremiações de escolas populares, como as escolas de samba e na política, com o apoio indireto a políticos.
Quero deixar claro que sou contra a qualquer manifestação de jogos de azar, só contei essa história porque ela faz parte da à história do Rio de Janeiro.
Saudações Florestais !